12/05/2011

Noite de um verão qualquer²

“Não pergunte sobre meu passado” Eu disse.
Ela não perguntou. Acho que pensou que eu tinha passado por algum grande trauma, porque passou o resto da noite me encarando com olhos de pena. Se eu tivesse passado mesmo por algum grande trauma eu odiaria que me olhassem daquela forma, mas como não era o caso, tirei proveito da situação.
O nome dela era Letícia. Não que eu me importasse realmente com nomes, mas homens que não perguntam o nome são mal vistos pelas mulheres. Não sei por quê. Quer dizer, talvez eu saiba. Mulheres gostam de ser enganadas. Se a gente diz que quer passar apenas uma noite, dão chilique e chamam de canalha. Mas se a gente mente, diz que quer um caso sério só pra passar uma noite, elas adoram, porque quando a noite acaba elas podem se enganar e passar horas esperando o telefone tocar. Há quem chame isso de romantismo; eu chamo de masoquismo.
Conversamos por mais de duas horas. Eu não gosto muito de conversar quando não tenho interesse em compromisso, mas ela gostava de Led Zeppelin, AC/DC e Pink Floyd, e bebia conhaque como se fosse água. Achei que merecia um desconto. Falamos até sobre cinema... Combinamos de fazer uma sessão especial do Poderoso Chefão qualquer dia, mas só porque eu preciso mostrar pra ela que o primeiro filme, apesar do que diz a crítica e os idiotas metidos a cinéfilos, é imbatível.
Depois de tanta conversa, eu fui ficando impaciente. Fui me aproximando com jeito e calei a boca dela, que devia ter algum defeito, porque não parava de falar. Eu me perguntei: “será que ela não sabe que bocas servem para outras coisas?” Mais tarde eu descobri que ela sabia. Fomos pra minha casa no meu carro, e eu quase bati três vezes por ela saber usar a boca bem demais. Só pra deixar claro, eu não costumo levar nenhuma mulher pra minha casa, não pra passar só uma noite. Depois que elas descobrem nosso endereço não tem mais salvação. Mas Letícia contou que morava com os avós e tal e coisa e eu achei que não pegava bem. Depois eu dizia que aquele era o apartamento de algum amigo e me livrava dela.
Durante o resto da noite as coisas só melhoraram. Descobri que ela era uma águia na cama, ô mulherzinha insaciável. Eu nunca encontrei alguém que me fizesse pedir penico, mas com ela foi quase. Deixamos o sexo no stand up e fomos jogar poker, o que levou a mais sexo, o que levou a mais poker, o que levou a mais sexo e mais poker, e mais sexo, e mais poker. Tenho que confessar que fiquei impressionado por ela ter ganhado de mim quase todas as vezes, porque eu geralmente sou implacável. Não lembro bem – porque bebi demais – mas devo ter deixado ela ganhar. Além do mais, ela ficava me distraindo com a porra daquele batom vermelho que ela retocava o tempo inteiro. Provavelmente ela sabia que ficava incrivelmente sexy com os lábios entreabertos daquele jeito.
Adormecemos no tapete da sala mesmo. Só faltava uma lareira pra ser cena de filme, mas era verão e estava muito quente. Eu acordei com uma dor de cabeça do caralho, mas fiquei de olho fechado, fingindo que ainda estava dormindo, enquanto ensaiava a desculpa que eu daria quando Letícia perguntasse quando a gente se veria novamente. Mas pensei direito e achei que não faria grande mal se a gente se encontrasse algum outro dia... Sem compromisso, claro. Ou talvez a gente pudesse ter uma relação aberta ou qualquer coisa do gênero.
A surpresa veio quando eu finalmente abri os olhos. Procurei-a em volta, no banheiro, no quarto, na cozinha. E encontrei o único vestígio dela na geladeira: “Não pergunte sobre o meu passado”. Eu era o passado dela agora.

Matheus Sobral

3 comentários:

Tay disse...

UOL, muito legal esse conto, me surpreendi com o final

bjus =*

Cassia disse...

Oie belo texto

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dedi disse...

gostei...